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Allan Kardec |
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O Espírito Humberto de Campos, sob o pseudônimo de Irmão X, ditou a obra Cartas e Crônicas pela mediunidade abençoada de Francisco C. Xavier. Em seu cap. 28, o autor espiritual descreve o encontro entre o Espírito Napoleão Bonaparte, encarnado naquele momento, e uma entidade de grande elevação, que descera do Mais Alto, para aconselhar o grande corso, que se desviava da sua programação reencarnatória para repetir os mesmos excessos já praticados quando ele fora Julio César, na Roma imperial, mais de dezoito séculos antes. O encontro, ao qual foi conduzido o Espírito do grande Napoleão, enquanto seu corpo repousava no seu leito terreno, deu-se na noite de 31 de dezembro de 1799. O corso viria a se autocoroar imperador dos franceses, em dezembro de 1804, enquanto o Espírito elevado que o viera aconselhar viria a ser o Codificador do Espiritismo Allan Kardec.
Foi assim que, a 3 de outubro de 1804, portanto, no mesmo ano da coroação de Napoleão Bonaparte, em Lyon, na França, nasceu no seio de uma antiga e tradicional família local Denizard Hippolyte-Léon Rivail, que viria a adotar muito mais tarde o nome gaulês de Allan Kardec, para ser o instrumento da plêiade do Espírito da Verdade e trazer para o mundo a Doutrina dos Espíritos, que nasceu com a publicação de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857.
Filho de um magistrado francês, Jean Baptiste-Antoine Rivail, e de uma dona de casa extremamente dedicada, a Sra. Jeanne Duhamel, fez seus primeiros estudos na sua Lyon natal, indo completá-los em Yverdon, Suíça, na escola do eminente educador Pestalozzi, um dos mais importantes personagens da História da Educação. Ao concluir seus estudos, o jovem Rivail tornou-se bacharel em letras e em ciências. Linguista insigne, falava fluentemente o alemão, o inglês, o italiano e o espanhol, além do francês, naturalmente, sua língua-mãe; conhecia bem o holandês, além do grego e do latim. Retornando para a França, foi morar em Paris, onde, como educador e pedagogo, fundou uma escola.
A partir daí, dedicou-se de corpo e alma à educação, escrevendo inúmeros livros visando à melhoria do ensino em França. Suas obras foram adotadas pela Universidade de França e tiveram venda abundante, o que lhe permitiu amealhar uma boa poupança, com a qual poderia viver tranquilamente pelo resto dos seus dias. Seu nome e seu trabalho eram altamente respeitados, na França e em outras partes do continente europeu, tendo grande prestígio principalmente na Alemanha, onde suas obras também influenciaram na reforma educacional, pois falava e escrevia corretamente em alemão.
Em fevereiro de 1832, casou-se com a professora de belas-artes, a Srta. Amélie Boudet, nove anos mais velha do que ele, mas que, na aparência, dir-se-ia ter dez anos a menos que ele. Foi o casamento perfeito para o grande educador, de vez que Amélie viria a ser sua companheira em todas as empreitadas a que ele se dedicou, até o último de seus dias. Aliás, ela viria a sobreviver a ele por catorze anos ainda e seria a grande continuadora da sua obra nos anos finais de sua vida, tendo desencarnado com quase 90 anos de idade.
Em 1854, o educador Rivail ouviu falar pela primeira vez nas mesas girantes, charme das reuniões nos salões parisienses da época, nas quais as pessoas se encontravam para divertir-se e passar tempo. Foi o seu amigo, Sr. Fortier, quem lhe trouxe a notícia do fenômeno. Mas, foi só no início do ano de 1855 que um outro amigo, o Sr. Carlotti, lhe falou com entusiasmo acerca desses fenômenos e o exortou a participar dessas reuniões. Rivail não renegou o convite, mas disse ao amigo: “Veremos isso mais tarde”. Em maio desse ano, na casa da Sra. Roger e na presença do seu amigo Fortier e da Sra. Plainemaison, ouviu falar mais seriamente e com maior riqueza de detalhes acerca das mesas girantes, cujo fenômeno viria a presenciar, pela primeira vez, na casa desta última, poucos dias depois. A partir de então, começou propriamente a sua tarefa de missionário, que cessou apenas com a sua desencarnação, em 31 de março de 1869.
Com o seu espírito de observador sagaz, passou a frequentar reuniões, nas quais os Espíritos se manifestavam, geralmente através de jovens médiuns, principalmente meninas, adolescentes. Passou, então, a formular perguntas para que os Espíritos respondessem, organizando um estudo dirigido e científico, no qual ia recolhendo o material para a elaboração das obras da Codificação, que começou com o Livro dos Espíritos, cuja primeira edição sairia em 18 de abril de 1857, conforme já citado anteriormente, e a segunda e definitiva, em 1860. Depois viriam O Livro dos Médiuns, em 1861; O Evangelho Segundo o Espiritismo, em 1864; O Céu e o Inferno, em 1865, e A Gênese, em 1868, poucos meses antes da sua desencarnação.
Entre 1857 e 1868, portanto nos intervalos entre os livros básicos da Codificação, publicou outras obras de menor densidade, como O Que é o Espiritismo e O Principiante Espírita, por exemplo, e lançou, coordenou e dirigiu até o final a Revista Espírita, publicação mensal iniciada em janeiro de 1858, e que se constitui num complemento indispensável ao estudo do Espiritismo, por ser fonte abundante de informações acerca de todo o trabalho do Codificador e do andamento do movimento espírita da época.
Ainda no ano de 1858, no dia 1º. de abril, fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritos, que se pode considerar como sendo o primeiro centro espírita do mundo, presidido pelo próprio Kardec, que estava plenamente consciente da sua responsabilidade pessoal quanto a tudo que estava acontecendo nas hostes do movimento espírita nascente. Ali se faziam reuniões públicas e reuniões mediúnicas, que foram importantes no enriquecimento do trabalho do Mestre de Lyon.
Mas, foi no ano de 1856, numa reunião na casa da família Baudin, amigos do Sr. Rivail, que este teve o seu primeiro contato com o seu Espírito familiar, que lhe disse que para ele chamar-se-ia a Verdade e estaria presente todos os meses, durante um quarto de hora, naquele casa, à sua disposição. Ele destacou que a vida material, para quem estava na Terra, também era importante, e que “não te ajudar a viver seria não te amar”, no sentido de tranquilizá-lo quanto à continuidade da tarefa a par da sua vida pessoal. O Espírito que se manifestava na casa do Sr. Baudin denominava-se Zéfiro.
Foi também numa dessas reuniões que lhe foi revelado ter sido ele, Rivail, um druida (sacerdote, magistrado e sábio) entre os gauleses, ao tempo de Julio Cesar, e que se chamara Allan Kardec. Foi assim que, ao assumir o seu papel de Codificador do Espiritismo e iniciar uma nova fase da sua vida e do seu trabalho na Terra, e para diferenciar das fases anteriores, em que foi o educador ilustre e autor de muitas obras importantes no campo da Educação, adotou o nome de Allan Kardec, que surgiu pela primeira ao conhecimento público com O Livro dos Espíritos. Foi assim que Denizard Hippolyte-Léon Rivail morreu para o mundo.
Kardec foi o comandante da plêiade do Espírito da Verdade na Terra, por escolha do próprio Mestre Jesus, e conduziu o trabalho da Codificação com extrema responsabilidade e seriedade, levando sua missão a bom termo, com o suporte da Espiritualidade, cujo apoio jamais lhe faltou. Foi avisado previamente que seria alvo de ataques e críticas, as quais aconteceram em muitos momentos da sua tarefa. Neste aspecto, um fato dos mais significativos foi o Auto de Fé de Barcelona, ocorrido em outubro de 186l, em que, por ordem do Bispo local, vários volumes dos livros da Codificação enviados para um livreiro da cidade foram confiscados e queimados em praça pública, numa verdadeira cerimônia inquisitorial. Era a ação da igreja para conter o avanço do Espiritismo. O episódio, porém, teve efeito contrário e só serviu para instigar ainda mais a curiosidade do povo espanhol acerca das obras.
O trabalho de Kardec foi monumental, se levarmos em conta o volume da obra que deixou, a condução pessoal do trabalho, para o qual contou com inúmeros colaboradores encarnados, cujas produções coube a ele exclusivamente coordenar, organizar e tornar públicas. Além disso, há que se considerar o crescimento doutrinário espantoso, em apenas 150 anos de existência, contando com milhares de grupos espíritas espalhados por todo o mundo, mas principalmente no Brasil, onde a doutrina encontrou terreno fértil para o seu crescimento e avanço. Deve-se computar também as milhares de obras espíritas surgidas só no séc. XX, a demonstrar que o trabalho da Espiritualidade não cessa, ou seja, passam os homens, mas a tarefa prossegue, firme e resoluta.
Agora era a vez de Allan Kardec desaparecer do cenário terreno. Em 31 de março de 1869 ele desencarnou, na idade de 64 anos, vítima da ruptura de um aneurisma da aorta. Caiu fulminado quando preparava a mudança da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas para um outro endereço, onde se instalaria no dia seguinte. As tentativas de reanimação do seu corpo foram infrutíferas e no dia 02 de abril ele baixou à sepultura no Cemitério de Monmartre, em Paris. Um ano depois, em 31 de março de 1870, seus despojos foram trasladados para o Cemitério Père-Lachaise, em outra região de Paris, onde se encontram até hoje. Sua sepultura foi construída ali na forma de um dólmen druídico e é visitada anualmente por milhares de pessoas de todo o mundo, que depositam diariamente muitas flores aos seus pés.
Foi assim que o corpo de Allan Kardec foi levado para o Père Lachaise, cemitério mandado construir por Napoleão Bonaparte e inaugurado no ano de nascimento de Denizard Hippolyte-Léon Rivail, 1804, para glória do Imperador francês, que jamais foi sepultado ali, embora esta tivesse sido uma das promessas da sua investida publicitária junto ao povo de Paris. Seu esquife acabou no Hôtel des Invalides, mandado construir por Luís XIV, no séc. XVII, para abrigar os soldados de seu exército que se tornavam inválidos em batalhas.
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