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A Doutrina Espírita surgiu na segunda metade do séc. XIX, na França, mais precisamente, com o lançamento da 1ª. edição de O Livro dos Espíritos, em 18 de abril de 1857, que traz a Terceira Revelação - sob a coordenação do Espírito da Verdade - codificada por Allan Kardec. O título da obra vinha encimado pelas palavras Filosofia Espiritualista. O Espiritismo, portanto, é uma doutrina espiritualista, que tem por princípio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível, conforme explicado em sua Introdução pelo próprio Codificador, e veio ao mundo apoiado sobre o tripé ciência-filosofia-religião.
No preâmbulo da obra O Que é o Espiritismo, Kardec explica que “o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que dimanam dessas mesmas relações.” E então, o Codificador conclui com a seguinte definição: “O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”.
E o próprio Kardec complementa a idéia de ciência no Espiritismo, na Introdução de O Livro dos Espíritos, item XVII: “A Ciência Espírita contém duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral; outra filosófica, sobre as manifestações inteligentes”, referindo-se, assim, em primeiro lugar, aos fenômenos mediúnicos em geral, e, no segundo plano, às comunicações que trazem consolo, esclarecimento, orientação, advertência e ensinamento. Herculano Pires, ao traduzir O Livro dos Médiuns, destacou ser ele “o livro básico da Ciência Espírita, um tratado de mediunidade indispensável a todos os que se interessam pela boa realização de trabalhos mediúnicos e pelo desenvolvimento das pesquisas espíritas.”
Nas conclusões do mesmo Livro dos Espíritos, item VI, referindo-se ao Espiritismo, Kardec afirma: “Sua força está na sua filosofia, no apelo que faz à razão e ao bom senso.” Assim, o segundo aspecto doutrinário - filosofia - destaca-se com toda a clareza. O Livro dos Espíritos, “escrito na forma dialogada da Filosofia Clássica”, no dizer de Herculando Pires, que o traduziu, é um verdadeiro tratado filosófico, contendo os princípios, conceitos, axiomas e definições doutrinários, começando pela Metafísica, ao oferecer os conceitos de Deus e espírito, e chegando até a Ética, quando explana acerca das Leis Morais ou Divinas e da vida futura.
Dessa forma, em princípio, o Espiritismo é filosofia, com raízes profundas na própria tradição filosófica (a partir das escolas gregas). Esta é a razão pela qual Sócrates e Platão figuram na Codificação Espírita como precursores do Cristianismo e, por conseguinte, do Espiritismo. O Livro dos Espíritos traz toda a doutrina, expressa em seus princípios básicos: Deus, espírito, fluido cósmico universal, escala dos mundos, escala espírita, erraticidade, pluralidade das existências ou reencarnação, retorno ao mundo espiritual, mediunidade, evolução do princípio inteligente, leis divinas e esperanças e consolações. Os demais livros da Codificação Espírita - O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, o Céu e o Inferno e A Gênese - são desdobramentos de O Livro dos Espíritos.
O que dizer do Espiritismo como religião? É o próprio Codificador quem elucida a questão. Em discurso proferido na sessão anual comemorativa dos mortos, em 1º de novembro de 1868, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, por ele fundada em 1º de abril de 1858, discurso esse intitulado “O Espiritismo é uma Religião?”, Kardec responde afirmativamente.
Depois de esclarecer que o laço estabelecido por uma religião é essencialmente moral, ele explica em que sentido o Espiritismo é religião: “Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião...” (Revista Espírita, ano 1868, pág. 351 e segs.) E Kardec enfatiza que a palavra religião geralmente está ligada à idéia de culto, ou seja, de prática exterior, rituais, sacramentos, celebrações, paramentos, símbolos, sinais de identificação, hierarquia administrativa etc. Como o Espiritismo não apresenta nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção comum do termo, ele costuma ser definido como uma “doutrina filosófica e moral”, acima de tudo.
Na Doutrina Espírita, o sentimento de religiosidade paira acima da prática religiosa propriamente dita. Portanto, o caráter religioso do Espiritismo está na vivência interior, no sentimento que se nutre em relação a Deus e na busca da harmonia com as suas leis; na prática silenciosa da oração; na postura de recolhimento e respeito com que se participa de uma reunião espírita; no esforço para empreender a reforma íntima; na vivência do amor ao próximo; no hábito das boas leituras e estudo constante e na prática da caridade, que é “a alma do Espiritismo”, no dizer sensato do Codificador.
Enfim, o Espiritismo é uma doutrina racional, lógica, de modo que a fé espírita é ativa, dinâmica e, como disse Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo, “crê-se, porque se tem a certeza, e só se está certo quando se compreendeu.” Daí, o conceito espírita de fé racional, deduzido pelo próprio Codificador: “só é inabalável a fé que pode enfrentar a razão face a face, em todas as épocas da Humanidade”. Trata-se, assim de uma “Religião, propriamente considerada como sistema de crescimento da alma para celeste comunhão com o Espírito divino”, nas sábias palavras do Espírito Emmanuel.
Completa-se, assim, o Triângulo de Forças Espirituais, a que se referiu o nobre mentor do nosso querido Chico Xavier, na obra “O Consolador”, sendo que, como consciência teórica, conceptual, o Espiritismo está concentrado em O Livro dos Espíritos; como consciência prática, fenomênica, está exposto em O Livro dos Médiuns; e, como consciência moral, religiosa, ética e estética, desdobra-se em O Evangelho Segundo o Espiritismo, mostrando-se como verdadeira síntese de todo o conhecimento humano.
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